Meu novo livro: Novas abordagens

Meu novo livro: Novas abordagens

domingo, 8 de maio de 2011

A terra prometida - artigo - OPOVO/Espiritualidade

   Várias foram as destruições do templo sagrado dos judeus em Israel, mas mesmo assim, continua vivo o desejo neles de habitarem pacificamente a terra santa de que dizem ser os legítimos destinatários na promessa bíblica feita por Deus. Em Ezequiel, o profeta, é assustadora essa promessa, pois é quase todo o Oriente Médio que Deus promete aos judeus. O povo judeu era escravo no Egito e fugiu levando ouro e se espalhou – diáspora – pelo planeta, onde constituiu famílias e diversos negócios comerciais. Houve épocas em que era proibida a venda de terras na Europa aos judeus; e a sua emancipação – concessão de direitos políticos e sociais nos países cristãos – durou do século XVIII até a acessão de Hitler ao Partido Nacional-Socialista. Neste ínterim, surgiu a doutrina do sionismo, fundada por Teodoro Herzl (1860-1904), que esteve apenas uma vez na Palestina, que diz, em apertada síntese, que somente num Estado judaico, os judeus estariam seguros. Curiosamente, o maçom Napoleão Bonaparte, em 1799, inspirado no então espírito libertador da Revolução Francesa, convidou os judeus para juntarem-se ao seu exército e fundarem o Estado judaico na Palestina, mas não houve empolgação à ideia napoleônica e o plano de ambos foi adiado...
   David Ben Gurion (1886-1973), fundador do Estado de Israel, era admirador do bolchevista Lênin e de seus métodos de imposição de mudança cultural, mas a ideia do sionismo não era unanimidade entre o povo judeu e a insistência na retomada de Israel alimentou guerras, ódio e o antissemitismo. Após a fundação do Estado de Israel, na Palestina, em 1948, apoiada pela Organização das Nações Unidas – ONU – nunca mais o mundo dormiu tranquilo e passou a esperar atônito a próxima grande guerra, pois a hostilidade dos países limítrofes é intensa e recíproca.
   Jean-Jacques Rousseau, dizia que a terra era de todos, mas um dia certo homem resolveu cercar uma gleba e proclamou: “Esta terra é minha!”, os que viram ficaram calados e nada fizeram para impedir aquele gesto egoísta que causa ainda hoje à humanidade intermináveis discórdias e guerras. O intelectual israelense Amnon Raz-Krakotzkin disse com fino humor: “Nossa reclamação sobre esta terra é simples: Deus não existe e Ele nos prometeu esta terra”.


Luís Olímpio Ferraz Melo é psicanalista.

sábado, 7 de maio de 2011

História de vida - artigo - Diário do Nordeste

Numa das versões do antiquíssimo conto árabe, "As mil e uma noites", é dito que o rei persa Shariar surpreende a sua esposa em adultério e não contendo a emoção, mata-a. Após essa tragédia real pessoal Shariar passa a se relacionar com várias mulheres, mas ao término da noite de orgias, entrega a mulher aos seus carrascos para que a exterminem. Shariar sentia prazer em matar as mulheres e assim foi por muito tempo até que Sherezade, filha de um Vizir - alto funcionário nos impérios muçulmanos - se envolver com o rei traído, mesmo sabendo do perigo iminente de morte. Porém, usa uma estratégia admirável para demovê-lo do seu desejo de se vingar do universo feminino por conta de uma traição. A cada noite, Sherezade conta uma história para Shariar e, quando fica fascinante e próximo ao término, deixa-a inconclusa para terminá-la na noite seguinte, deixando o rei curioso para saber o final. E assim foi por mil e uma noites... As histórias antigas de várias culturas trazem ensinamentos velados que precisam de compreensão para a elucidação; e, no caso da tragédia de Shariar, que até então parecia irreversível, apareceu uma mulher que foi capaz de conquistá-lo usando um método contrário ao processo da análise, ou seja, o rei apenas ouvia, ao invés de falar. A questão da traição conjugal está impregnada na cultura da civilização, pois é reprimida e até em livros ditos sagrados é recomendado o apedrejamento e a morte a mulher adúltera. Passou despercebido que a mentira engole o fato na traição, pois o sujeito se sente traído por conta da mentira e o fato - o eventual ato sexual - pode ser considerado algo acessório. Nos países de cultura muçulmana, a mulher que for surpreendida em adultério é apedrejada até a morte e a todo um ritual para prolongar o sofrimento e assim desencorajar as outras na prática do adultério - mas não há evidências de que haja diminuição da traição. Um fato chama a atenção na questão do adultério: a quase totalidade dos que traem dizem sofrer, mesmo que não sejam descobertos, sugerindo que podem ter caídos inconscientemente numa "armadilha" cultural...


LUÍS OLÍMPIO FERRAZ MELO é psicanalista

terça-feira, 3 de maio de 2011

DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA - Observatório da imprensa


A data esquecida



Por Luís Olímpio Ferraz Melo em 3/5/2011





   O casamento real do príncipe William com a bela duquesa Kate Middleton na semana passada, na Abadia de Westminster, na Inglaterra, mobilizou a atenção da mídia ocupando quase todo o noticiário internacional. A imprensa, açodada como sempre, divulgava fatos que ainda não tinham acontecido e buscava o “importantíssimo furo” que seria o vazamento da imagem do vestido da noiva, antes da hora do enlace matrimonial real.
   A cultura monárquica movimenta a Inglaterra pelo glamour, mas é contrária à questão da liberdade, pois, sem a democracia, os súditos contemporâneos não têm o poder de usar o sufrágio universal e escolher os seus representantes e têm que se acostumar com a perpetuação da família real e suas tradições e rituais nababescos. O curioso é que o planeta parou para ver a bonita festa, mas que é uma contradição à liberdade tão almejada na contemporaneidade e que tem levado povos a se “rebelarem” revoltosa e repentinamente. A monarquia da Inglaterra parece que ainda manda no mundo. Pelo menos nas suas festas oficiais, todos param obedientemente para vê-la. No entanto, outro evento que se comemora hoje, dia 3 de maio, com certeza mais importante do que o casamento real e que diz respeito à própria mídia e à sua sobrevivência, é o do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, mas parece que não terá, nem de longe, o mesmo destaque dispensado ao último enlace real.
   Vivemos um período de grandes transformações de toda ordem, inclusive na mídia, pois, vez por outra, o fantasma da censura reaparece para lembrarmos que a luta pela liberdade de expressão e de imprensa é permanente e essa conquista da civilização deve ser preservada. Assistimos atônitos neste momento à movimentação dos governantes na América do Sul querendo tolher, sem qualquer remorso, o sacrossanto direito à informação do seu legítimo destinatário, a população, das ações governamentais sul-americanas. Impressiona esse desejo totalitário de certos governantes de impor a volta da censura – e têm ainda a desfaçatez de se arrogarem de democráticos.
   Aqui no Brasil, por exemplo, na época da ditadura militar, a censura e os censores agiram impiedosamente contra a liberdade de expressão e de imprensa e não deixaram saudade alguma desse nefasto período governamental. O dia de hoje tem uma importância pomposa para a civilização, pois se comemora o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, e poderá servir para a reflexão de cada um de nós sobre a necessidade da liberdade de expressão nas nossas vidas e que os regimes totalitários nunca mais regressem para tolher-nos a liberdade e impor a censura.

domingo, 1 de maio de 2011

Suicídio inconsciente - artigo - Diário do Nordeste

As drogas têm o seu valor terapêutico, tanto o é que, a morfina - em referência ao deus mitológico grego Morfeu, do sono e das ilusões -, é usada na medicina para aliviar a dor do paciente, assim como o vinho na Antiguidade era o anestésico oficial dos médicos. A diferença de algo útil tornar-se perigoso e letal é a forma de seu uso, pois as drogas sempre existiram e são usadas em grande escala na civilização para diversos fins. Alguns estudiosos defendem o uso da maconha para fins terapêuticos, pois, segundo eles, a erva pode aliviar o sofrimento de pacientes crônicos. A experiência de Amsterdam, na Holanda, que legalizou as drogas, chama a atenção para a questão do uso, digamos, disciplinado dos entorpecentes, pois há lojas vendendo abertamente diversas drogas e os índices de violência não cresceram após a liberação, pelo contrário, praticamente desapareceu a figura do terrível traficante, que além de traficar, mistura outras substâncias nas drogas tornando-as mais potenciais e letais. É tolice discutir a legalização das drogas no Brasil, pois há tempos são vendidas livremente e quase sem resistência e repressão. O movimento de contracultura fez apologia ao uso indiscriminado das drogas e levou milhões de jovens a embarcar numa viagem que quase sempre não tem volta e assim comprometeu-se a saúde mental de toda uma geração dita psicodélica; e a prometida liberdade transformou-se numa hipótese real de terminar os dias recluso num hospital psiquiátrico. Em algumas culturas indígenas, usam-se em rituais pontuais bebidas extraídas de plantas e que produzem estados alterados de consciência, inclusive, em alguns casos, os efeitos terapêuticos são positivos, porém, o uso contínuo - algumas pessoas não podem participar desses rituais - pode levar o homem à impotência sexual e a mulher à frigidez. Em qualquer cenário do uso incorreto das drogas e do álcool, vê-se um desejo inconsciente de suicídio no sujeito, pois sabendo das informações e dos perigos que podem causar, assume o risco de prejudicar a sua higidez mental e física, fenômeno este análogo ao do suicídio...



LUÍS OLÍMPIO FERRAZ MELO é psicanalista

domingo, 24 de abril de 2011

Mudança cultural - artigo - Diário do Nordeste

O imperador romano Adriano (76-138) travou luta contra os judeus e proibiu o judaísmo por conta da reclamação de que esta cultura em Jerusalém estava sendo profanada com construções que fugiam ao tradicional. Adriano não mediu forças para modificar a cultura judaica daquela época. Na Revolução Francesa, no século XVIII, tentou-se destruir a cultura religiosa existente para se impor outra, e igrejas foram destruídas, o calendário foi modificado, excluindo-se o "domingo", porém, no cadafalso foram guilhotinados milhares de dissidentes da revolução, como se fossem inimigos do povo. A cultura monarquista francesa foi substituída por uma nova ordem constitucional que defendia o liberalismo econômico e garantia a liberdade e a igualdade entre os franceses. Na Revolução Cultural chinesa, em 1950, no Tibete, os comunistas assassinaram um milhão e duzentos mil inocentes e inofensivos tibetanos para poder implantar a nova cultura comunista - bibliotecas inteiras foram destruídas e hoje outra história é contada para os tibetanos. No regime do Vichy, na França, (1940-44), durante a II Guerra Mundial, os nazifascistas ensinavam em cartilhas aos alunos a história modificada enaltecendo as "vantagens" daquele governo. A cultura dos povos vem sofrendo mudanças, ora forçadas, como as descritas, ora por empréstimos de outras culturas. A cultura na civilização hoje é híbrida e já quase não há virgindade em alguma delas, pois se implantou comidas, rituais, modas, arquitetura, etc., modificando a tradição cultural originária. O capitalismo não respeita cultura alguma e escraviza os povos priorizando sempre a produção à tradição e introduz a cultura do consumismo. O fenômeno da globalização possibilitou a modificação de culturas nativas tornando-as metropolitanas e desejosas do consumo desenfreado antes não existente. Os nativos da Ilha de Páscoa, na Oceania, tido como o local mais isolado do planeta, por exemplo, lutam para que não desapareça a sua cultura "Rapa Nui" (ilha grande), pois os hábitos dos turistas estão transformando a ilha numa metrópole capitalista como outra qualquer.


 

LUÍS OLÍMPIO FERRAZ MELO é psicanalista

domingo, 17 de abril de 2011

A busca da alquimia - artigo - Diário do Nordeste


 
Arqueólogos ingleses descobriram no século XIX, na Mesopotâmia – hoje Iraque –, a epopeia do rei Gilgamesh em plaquetas de argila na língua cuneiforme, que teria vivido há cerca de 2.700 a.C. É dito no texto que Gilgamesh passeava com seu amigo Enkidu, de quem o destino acabou por lhe tirar a vida prematuramente, e após esse trágico evento, Gilgamesh passou a viajar pelo mundo em busca da imortalidade, mas do sobrevivente do dilúvio, Utnapishtim, teria ouvido que a sua busca era inglória, pois somente os deuses seriam imortais. Disse-lhe ainda: “Gilgamesh, onde queres chegar nas tuas andanças? A vida que estás procurando, nunca encontrarás. Pois, quando criaram os homens, os deuses decidiram que a morte seria seu quinhão, e detiveram a vida em suas próprias mãos. Gilgamesh, enche teu estômago; faze alegres o dia e a noite; que os teus dias sejam risonhos. Dança e toca música noite e dia. (...) Olha para o filho que está segurando a tua mão. E deixa que tua esposa encontre prazer nos teus braços. Só dessas coisas é que os homens devem cogitar”. Uma lição antiquíssima, mas ainda muito atual, pois o sujeito transita pela vida saboreando uma ilusão e alimentando desejos ilimitados, como se somente o presente tivesse total importância. A cultura do hedonismo – prazer imediato –, o desejo de gozar a qualquer preço, impera no sujeito e na sociedade. A busca desenfreada pelo prazer leva o sujeito a estados mentais preocupantes, pois, sem limites, a vida somente se justifica se houver gozo – não confundir com desejo. A intensidade do desejo não realizado – frustração – é proporcional ao tamanho e ao tempo do sofrimento no sujeito – muitos desejos são frutos da inveja. O desejo da imortalidade na epopeia de Gilgamesh pode ser traduzido no medo do homem de temer a interrupção irreversível do gozo. A morte não entendida produz na mente humana medo da indefinição sobre a sua alma – ou espírito – de onde irá descansar – se no céu ou no inferno –, segundo a alegoria religiosa. O homem é, sem saber, talvez, uma cópia de Gilgamesh antes de descobrir a verdadeira alquimia da vida.



Luís Olímpio Ferraz Melo é psicanalista

terça-feira, 12 de abril de 2011

Análise de uma tragédia - artigo - Observatório da imprensa

Por Luís Olímpio Ferraz Melo em 12/4/2011


   A tragédia da escola em Realengo, no último dia 7/4, deixou todos atônitos e em busca de explicações lógicas que pudessem elucidar o comportamento do jovem Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, que assassinou numa emboscada 11 adolescentes – 10 meninas e 1 menino. Rapidamente surgiram pela mídia as possíveis hipóteses: a mãe era esquizofrênica; o assassino era adotivo, teria sofrido bullying na escola e era zombado por ser capenga, era misógino etc.
   Não é sábio embarcar em nenhuma dessas hipóteses como fator determinante ao desencadeamento da terrível tragédia, pois há algo além de tudo isto. Nos EUA, vez por outra somos surpreendidos com casos análogos ao acontecido agora aqui no Brasil e sempre, após o ocorrido, levanta-se o debate em busca de um fato para ser o “culpado” – quase sempre é a venda legalizada de armas.
   No universo não existe efeito sem causa e os antigos contavam com essa hipótese, pois sabiam – diferente de “acreditavam” – da reencarnação como fator determinante para os acontecimentos de nossas vidas. No Oriente, absorve-se com maior facilidade a teoria reencarnacionista, mas no Ocidente vê-se ainda resistência em reconhecer o óbvio – nada acontece por acaso. Sempre houve tabu para se tratar da reencarnação e da imutável lei de causa e efeito devido ao desejo incontrolável das religiões de dominar o homem e assim impedir que este soubesse da verdade. O Antigo Testamento proíbe a comunicação com os espíritos, mas se proíbe é porque eles existem, daí o obstáculo milenar ao estudo desse fenômeno que pode fornecer elementos para a elucidação de tragédias como a da escola de Realengo. O planeta Terra passa neste momento por transformações profundas e, inevitavelmente, outros eventos de tamanha comoção acontecerão, pois fazem parte do processo de renovação da civilização.
   O tema em epígrafe não é estranho à psicanálise, como pode imaginar algum leitor açodado, pois Sigmund Freud participou como médium de sessões do famoso fenômeno europeu das “mesas girantes”, onde supostamente espíritos respondiam a perguntas formuladas pelos participantes, pois Freud sabia que muitas explicações não seriam encontradas apenas no divã na análise. Freud recuou do estudo dos fenômenos espirituais pois temia resistência da psicanálise na ortodoxa comunidade científica. E, numa carta datada de 24 de julho de 1921, em resposta ao psiquiatra norte-americano Hereward Carrigton, que lhe pedia sua opinião sobre espiritualidade, diz: “(...) Se eu me encontrasse no início de minha carreira científica, e não em seu fim, talvez escolhesse esse campo de pesquisa e desafiaria todas as dificuldades...”